26 Junho, 2009

passou


Incrível como esqueco os rostos das pessoas, em vários casos até a personalidade, e isso talvez signifique o quanto esses rostos também não se lembrarão dos nossos e nem das nossas brincadeiras e perguntas.

Talvez lembrem da resposta de uma certa pergunta que alguém algum dia fez. Essa resposta talvez mude depois de um tempo. Já sumimos de tantas pessoas, estamos de passagem em algumas para aparecer mais tarde nas últimas. Tudo é simples e, pra mim, muito legal.

Agora nada a ver, estou lendo "Deus: Um Delírio" (título autoexplicativo) do Richard Dawkins, convidado para a FLIP desse ano e, para todos os poucos que lerão isso, eu indico muito a leitura, dá vontade de sair lendo para as pessoas de tão claro e evidente que tudo é. Acabo o post com a frase que começa o livro:

"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"

31 Maio, 2009

Fica

Vai Mario. Fica todo o teu encantamento.

Eu ficaria triste, mas algo me diz ele nos quer rindo. Sorrio e vejo o mundo pelas tuas letras.


26 Maio, 2009

Reflexões de um livreiro-pensante



Sempre ouvi relatos de pessoas que sentem um incômodo ao preencherem o campo 'emprego' em qualquer formulário. Se perguntam se atuar, escrever ou fotografar, normalmente sem salário fixo, se encaixa na vaguidão desse termo e, embora no âmago sintam a pontada de orgulho por se considerarem artistas, respondem ser professores, jornalistas, estudantes. Invejei essas pessoas por tempos pois minhas respostas sempre foram precisas: 'Estudante', depois 'Aux. de Escritório', depois, na vergonha de colocar 'Estagiário', voltava a ser 'Estudante'. De dois anos para cá o incômodo veio ao meu encontro, acompanhado até com a pontadinha de orgulho.

Escreveria que o acaso me tornou livreiro, eu ajudei, fui gostando e fiquei, mais passivo do que ativo. Ao começar a trabalhar em livraria desenvolvi, graças aos colegas de trabalho, um gosto por leituras que hoje, ingenuamente, me orgulho. Em uma reunião ouvimos que somos todos livroeiros, mas livreiro é quem? Quem entende de livros? Quem é dono dos livros para vender? Quem efetivamente vende os livros? Tudo isso junto? O fato é que na hora de responder a lacuna, hesito, e coloco-me como 'Vendedor', que é o que de fato faço. Me coloco igual ao vendedor de lâmpadas, de roupas, de doces e no fim como todos ofícios exigem algum entendimento sobre a mercadoria, cá estou eu aprendendo sobre livros.

Mesmo após a resposta oficial continuei considerando-me superior ao vendedor de cuecas, por motivos que me eram óbvios, mas um pequeno pensamento mudaria minha opinião. Vendo livros para pessoas com muito, mas muito, mais dinheiro do que eu e em conversas na loja começamos a ver como todas pessoas da região tem filhos e, consequentemente, babás. Os filhos parecem mais algo a ostentar do que qualquer outra coisa, chegando ao ponto de vermos mães esquecer os nomes dos filhos na loja:

- Traz o livro aqui... erm... Ra.. Ricardo!

A babá poderia ter soprado, pois todos os dias, está no setor infantil com a criança e a mãe aparece uma vez por mês, aproveita para tratar mal algum funcionário. O setor infantil fica mais fácil de ser identificado pelas negras de uniforme branco/bebês loiros com olhos azuis, do que pelos livros em si. O fato rapidamente concluído foi que os ricos pagam os pobres para cuidar de seus filhos, logo viria a segunda conclusão que me acordou, os ricos nos pagam para ler para eles. Lemos bastante, indicamos de acordo com o que o querem, contamos a história e pronto. O cliente está agora com 'As Brasas', 'Memórias do Subsolo', 'Fim de Partida' e o 'Deserto dos Tártaros' na estante e quando necessário saberá contar o que lhe falamos para impressionar:

Dois clientes nossos se encontram para um jantar. O visitante, ao ver os livros do amigo na estante, diz:
- Esse livro é incrível.
- Nossa, é espetacular. Um tratado sobre a solidão. Tem inclusive uma adaptação para o cinema nos anos 80 que é fantástica.

Nenhum leu, mas o papel do livro ali está bem feito, se bobear até me elogiam para o chefe, ganho um aumentinho e fico sendo um livreiro mais feliz.

17 Fevereiro, 2009

o que há


"O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço..."


Alvaro de Campos


Não tenho certeza se me sinto bem quando uma poesia exprime o que sinto. Sinto o que muitos sentem. Meu cansaço talvez não seja tão romântico, acredito que seja real. Cansei de ver o que vejo, sentir isso que... será que sinto?

Tudo o que acho tão superficial no eu ou outros conseguem ter tão profundo. Não os invejo. Só cansei...

16 Fevereiro, 2009

A barata

"Tendo voltado tarde para casa, esmaguei uma barata que, no corredor, me escapava entre os pés (ficou lá, preta, no ladrilho) depois entrei no quarto. Ela dormia. Deitei-me ao seu lado, apaguei a luz, da janela aberta via um pedaço de parede e o céu. Fazia calor, não conseguia dormir, velhas histórias renasciam dentro de mim, dúvidas também, uma genérica desconfiança no amanhã. Ela soltou um pequeno lamento. "Que houve?", perguntei. Ela abriu um olho, grande, sem me ver e murmurou: "Tenho medo." "Medo de quê?", perguntei. "Tenho medo de morrer." "Medo de morrer? Por quê?" Respondeu: "Tive um sonho..." Aproximou-se um pouco. "Mas que é que você sonhou?" "Sonhei que estava no campo, estava sentada na margem de um rio e ouvi gritos ao longe... E eu devia morrer." "Na beira de um rio?" "Sim.", respondeu "Ouvia as rãs... faziam crá, crá." "E que horas eram?" "Era noite e ouvi gritar." "Bem, durma, agora são quase duas horas." "Duas horas?", mas não conseguia compreender, já tornara a pegar no sono.

Apaguei a luz e ouvi alguém remexendo no pátio. Depois, subiu a voz de um cão, aguda e longa; parecia lamentar-se. Subiu, passando diante da janela, perdeu-se na noite quente. Depois abriu-se uma persiana (ou se fechou?). Longe, muito longe, mas talvez eu me enganasse, uma criança se pôs a chorar. Depois, novamente o ulular do cão, longo como antes. Eu não conseguia dormir.Vozes de homens vieram de alguma outra janela. Eram baixas, como murmuradas entre o sono. De uma sacada abaixo, ouvi um cip, cip, zitevitt, e algumas batidas de asas. "Flório!", ouviu-se chamar de repente, devia ser duas ou três casas mais adiante. "Flório!", parecia uma mulher, mulher angustiada, que tivesse perdido o filho.

Mas por que o canarinho do andar de baixo acordara? Que havia? Com um rangido lamentoso, como se fosse empurrada devagarinho por alguém que não queria fazer-se ouvir, uma porta se abriu em algum lugar da casa. Quanta gente acordada a essa hora, pensei. Estranho, a essa hora.

"Tenho medo, tenho medo", queixou-se ela procurando-me com o braço. "Oh, Maria", perguntei, "Que tem você?" Respondeu com voz tênue: "Tenho medo de morrer." "Você sonhou de novo?" Fez que sim, devagarinho, com a cabeça. "De novo aqueles gritos?" Fez sinal que sim. "E você ia morrer?" Sim, sim, indicava, procurando olhar-me, com as pálpebras grudadas pelo sono.

Há alguma coisa, pensei: ela sonha, o cão uiva, o canarinho acordou, as pessoas se levantam e falam, ela sonha com a morte, como se todos tivessem sentido uma coisa, uma presença. Oh, o sono não vinha e as estrelas passavam. Ouvi distintamente no pátio o ruído de um fósforo aceso. Por que alguém se punha a fumar às três horas da manhã? Então senti sede, levantei-me e saí do quarto para beber água. A triste lâmpada do corredor estava acesa, percebi vagamente a mancha preta no ladrilho e parei, assustado. Olhei: a mancha preta se movia.Ou melhor, movia-se um pedacinho (ela sonha que vai morrer, o cão uiva, o canarinho acorda, pessoas se levantaram, uma mãe chama o filho, as portas rangem, alguém fuma, e há talvez um choro de criança).


Vi, no chão, o bichinho preto que movia uma patinha. Era a do meio, à direita. O resto estava imóvel, uma mancha de tinta que caíra da morte. Mas a perninha remava fracamente como se quisesse subir de novo alguma coisa, o rio das trevas, talvez. Teria ainda esperança?

Durante duas horas e meia, dentro da noite — senti um calafrio —, o imundo inseto grudado no ladrilho pelas suas próprias mucilagens viscerais, durante duas horas e meia continuara a morrer e ainda não acabara. Maravilhosamente continuava a morrer, transmitindo, com a última patinha, a sua mensagem. Mas quem a podia colher às três da manhã, na escuridão do corredor de uma pensão desconhecida? Duas horas e meia, pensei, continuamente para cima e para baixo, a última porção de vida na perninha sobrevivente, para invocar justiça. O pranto de uma criança — lera um dia — basta para envenenar o mundo. Em seu coração, Deus onipotente quisera que certas coisas não acontecessem, mas não pôde impedi-lo porque por ele mesmo foi decidido. Mas uma sombra jaz ainda sobre nós. Esmaguei o inseto com o chinelo e, esfregando no chão, esmigalhei-o num longo rasto cinza.

Então, finalmente, o cão calou-se, ela, no sono, se acalmou e parecia quase sorrir, as vozes se apagaram, calou a mãe, não se percebeu mais nenhum sintoma de inquietude do canarinho, a noite recomeçava a passar sobre a casa cansada, a morte fora inchar sua inquietude em outras partes do mundo."

Dino Buzzati

02 Setembro, 2008

decifra-me ou devoro-te




"[...] Não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo da sua vida."

30 Julho, 2008

Aguçar

Quero explodir em trilhões de partículas e me gozar de sentidos mil.

Sentir a água, o amor, o deserto, o desespero e você e eu.